The story of cosmetics
(A história dos cosméticos)
O projeto "The story of stuff" lançou o novo vídeo, "The story of cosmetics" ("A história dos cosméticos"), informando sobre os perigos do uso diário de cosméticos. A apresentadora Annie Leonard afirma que o uso contínuo de cosméticos está adoecendo toda a sociedade. A maioria dos produtos encontrados no mercado estão carregados de toxinas causadoras de diversos problemas de saúde, como câncer, dificuldade de aprendizado e até infertilidade masculina. Annie levanta pontos importantes referentes ao processo de decisão de compra do consumidor, mostrando os tipos de argumento que as empresas usam para atrair e estimular o consumo de determinados cosméticos.
BLIP.TV
[ASSISTIR] [BAIXAR]
YOUTUBE
[ASSISTIR]
Veja também:
The story of stuff (Dublado PT-BR)
The story of bottled water (Legendado PT-BR)
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
"O fim dos tempos, segundo Zizek", de Aleksander Aguilar
O fim dos tempos, segundo Zizek
Se o fim do capitalismo é visto por muitos como o fim do mundo, como a sociedade ocidental pode enfrentar este período de fim dos tempos?
Aleksander Aguilar*
O esloveno Slavoj Zizek se tornou uma celebridade das ciências humanas, uma espécie de pop star da filosofia. Rotulado como um dos principais teóricos contemporâneos no campo da crítica cultural e da análise de problemas da política internacional, Zizek desfruta dessa reputação, jogando o jogo que lhe foi montado, fazendo as vezes de intelectual excêntrico, polêmico e controvertido – um rol que não reduz nem o seu brilhantismo, nem a pertinência das suas ideias.
Filosofia e crítica cultural e política vinculam-se de maneira singular em seu trabalho, marcado por um estilo cheio de ironias e quase-sarcasmos. E, ao utilizar principalmente o cinema para ilustrar suas opiniões, ganhou notoriedade neste campo e se converteu em um especialista na análise da obra de David Lynch e Alfred Hitchcock. O intelectual, assim, galgou e encravou seu nome como critico de cultura. Mas é ao manter suas ideias ligadas ao horizonte do marxismo e do comunismo que Zizek firma sua importância no debate sobre a desintegração dos Estados socialistas, sobre globalização e papel da esquerda mundial. O comunismo de Zizek não tem, no entanto, nada que ver com as experiências sob este nome do século XX, senão o desafio de enfrentar, e resolver, os atuais grandes problemas da humanidade.
O FIM DOS TEMPOS
Na esteira do lançamento do seu mais recente livro, ainda sem título em português, “Living in the End Times“, Zizek participou como um dos principais destaques do London Literature Festival e de um longo debate na prestigiosa London School of Economics (LSE), em julho na Inglaterra.
Professor da Universidade de Lubliana (Eslovênia) e diretor internacional do Instituto de Humanidades da Birbeck, Universidade de Londres, Zizek também é psicanalista e notoriamente conhecido como um especialista em Jacques Lacan, o principal seguidor de Sigmund Freud. Viveu sua vida universitária no ambiente de formação da república socialista iugoslava. Logo da independência da Eslovênia, depois da queda da União Soviética, em 1991, foi candidato à presidência da República pelo partido liberal democrático esloveno.
Com a língua presa, mas afiada, Zizek, cheio de tiques nervosos, falou para um lotado auditório do Royal Albert Hall sobre seus quatro cavaleiros do apocalipse, aqueles que em sua opinião trazem o inquestionável fim do capitalismo: a crise ecológica mundial, os desequilíbrios do sistema econômico, a revolução biogenética e a explosão das divisões e rupturas sociais. Mas a pergunta base da reflexão é: se o fim do capitalismo é visto por muitos como o fim do mundo, como a sociedade ocidental pode enfrentar este período de fim dos tempos?
“Democracia não é suficiente”, dispara. Não se trata apenas do seu sentido conhecido de eleições pluripartidárias, de Estado de direito. Uma diferente mobilização sociopolítica é o lugar onde as mudanças deveriam acontecer, argumenta. Na opinião de Zizek, há uma sobrecarga de críticas vulgares anticapitalistas. Ao mesmo tempo, do outro lado desse fenômeno global, existem tentativas de legitimar um capitalismo ético pós-moderno que aposta em equilibrar um discurso de responsabilidade social e ecológica.
CAPITALISMO NATURAL
Para o filósofo esloveno, a referência mais presente disso é o chamado “capitalismo natural”. Trata-se do conjunto de ideias para uma reinvenção do capitalismo, expostas no livro encabeçado pelo economista estadunidense Paul Hawken, que ganhou dimensão de movimento. Ele propõe uma nova revolução na produção mundial comparável com a Primeira Revolução Industrial. Como seria a economia se ela fosse organizada não através das abstrações econômicas neoclássicas, mas sim das realidades biológicas da natureza?
Para contra-atacar as negligências do capitalismo industrial tradicional para com os recursos naturais e os sistemas vivos sociais e culturais, essa teoria propõe uma mudança na abordagem da produção mundial. De acordo com os autores, há quatro estratégias centrais para se chegar a uma nova revolução industrial: a conservação dos recursos através de uma manufatura mais efetiva dos processos de produção, a reutilização de materiais na forma como são encontrados nos sistemas naturais, uma mudança dos paradigmas de valorização da quantidade para a qualidade e uma restauração e a sustentabilidade dos recursos naturais.
Porém, Zizek afirma que, apesar de parecer que tamanha redefinição de capital seja eticamente benéfica, sua implementação demandaria, como mínimo, um controle e regulação estatais muito mais estritos; com agências governamentais definindo e implementando no mercado preços de commodities naturais. A estratégia do capitalismo natural é salvar o planeta dos problemas ecológicos para que tudo se torne uma commodity. Enquanto mantém a matriz do capitalismo – o lucro expandindo suas próprias formas de reprodução – propondo a salvação disso precisamente através dessa excessiva universalização, o núcleo central do problema permanece sendo a busca pelo lucro como a razão da reprodução econômica.
E se o capitalismo busca reinventar-se, Zizek, com o humor seco e duro que marcam seu estilo, não deixa nem mesmo Antonio Negri escapar da sua crítica. O filosofo esloveno desafia o conceito de “multidão” do italiano, que se baseia nas atuais subjetividades políticas para permitir-se afirmar que basta a eliminação do já parasitário capitalismo (segundo entende Negri) para alcançar o comunismo. “Todos os exemplos convincentes de multidão que Negri apresenta são exemplos de dentro do capitalismo. Não vejo então fundamento sobre como essa ideia de multidão pode ser trazida daí para a totalidade da sociedade. Onde a multidão realmente começa a funcionar por si mesma?”, questiona.
Para Zizek, um dos pontos-chaves da principal obra de Negri, Império (que se tornou uma espécie de manifesto do movimento antiglobalização), não se justifica. A noção de Estado-nação não está desaparecendo; pelo contrário, está ficando cada vez mais forte. O que deveria ser totalmente abandonado, na percepção do filósofo esloveno, não é apenas a perspectiva dos Estados socialistas na forma da esquerda do século XX – aquilo que se costuma chamar Estados comunistas –, mas também o chamado Estado social democrático de bem-estar.
E, para não perder a viagem, Zizek segue: “Apesar disso, eu estou com Negri contra Alain Badiou, porque meu problema com Baudiou é mesmo com a maioria dos filósofos políticos de orientação francesa, onde se inclui também Ernesto Laclau e outros. Vocês percebem como não há espaço no trabalho deles para o que Marx chama de crítica da economia política? Eles afirmam que economia não tem nada a ver com política. Nesse ponto eu concordo com Negri: a economia é a arena onde as batalhas devem ser travadas, vencidas ou perdidas”.
NOVA CONFIGURAÇÃO EUROPEIA
A necessidade do horizonte comunista é apontada por Zizek, por exemplo, no atual cenário da Europa Ocidental e Oriental onde há sinais de uma reacomodação política de longo prazo. Há até recentemente, o espaço político estava dominado por dois partidos principais que conseguiam atender todo o seu corpo eleitoral: uma força de centro-direita (cristãos-democráticos, conservadores-liberais) e uma força de centro-esquerda (socialistas, social-democratas).
Agora, vemos uma progressiva nova polaridade. Zizek identifica a emersão de um partido que se posiciona a favor do capitalismo globalizado, geralmente com relativa tolerância ao aborto, direitos homossexuais, religião e minorias étnicas. E, em oposição a esse partido, há um agrupamento popular anti-imigrantes cada vez mais forte, que está acompanhado diretamente por grupos neofascistas. Nesse ambiente de despolitização das administrações pós-ideológicas – que, para Zizek, conforma uma “dinâmica perigosa” –, a única maneira de mobilizar as pessoas é provocar o medo (ameaça imigrante, por exemplo).
É a partir dessa constatação que o esloveno afirma que apenas o fantasma da esquerda poderá salvar as liberdades do liberalismo que valem a pena serem salvas. “Quando debatemos com os liberais, não deveríamos dizer: ‘Ah, vocês são os inimigos burgueses, não discutimos como vocês!’. Deveríamos, sim, alertá-los. ‘Sim, nós também gostamos das suas liberdades, mas apenas uma esquerda bem estabelecida em longo prazo irá ajudar a salvar os aspectos dessas liberdades que valem a pena. Se não for assim, vocês irão perder cada vez mais espaço para a extrema direita’”.
APOCALIPSE ECOLÓGICO
O outro sinal desse fim dos tempos, a crise ecológica mundial, é também analisado por Zizek como um aspecto que pode ser considerado cínico na nossa realidade. O discurso de fazer a nossa parte está permeado de cinismo e pode tangenciar os grandes problemas causados pelas grandes empresas com a retórica do “consumo responsável e sustentável”. “Toda ideia de reciclar o lixo, poluir menos…, tem algo de superstição. É como olhar a Copa do Mundo e estar em frente à TV gritando incentivos aos jogadores. Sabemos que é absolutamente insignificante, mas ainda assim o fazemos”, compara.
Para Zizek, os problemas que o mundo enfrenta hoje não podem ser apenas tratados pelo “capitalismo melhorado”, ou natural, nem pelas instituições democráticas. Nesse sentido, ao fazer referência aos problemas comuns da humanidade, é que comunismo ainda deve ser utilizado. “Coisas tremendas precisam ser feitas. Tomemos como o exemplo, muito factível, o vulcão na Islândia. E se a explosão tivesse sido tão grande ao ponto de todo o território islandês tornar-se inabitável? Não teríamos mecanismos para resolver o que fazer com a sua população. Para onde iriam? Deveriam se dispersar por todo o planeta? Os deslocamentos de grandes grupos humanos, por conta das mudanças na natureza, são questões presentes e altamente complicadas para as quais não temos respostas”, provoca.
Isso é o que Zizek quer dizer com comunismo. O Estado liberal, no seu atual sentido jurídico-legal, com parlamento e Estado de direito, não é suficiente. “Eu não me refiro à volta do camarada Stalin. O comunismo do século XX foi uma das maiores tragédias da História. Eu apenas afirmo que nós estamos enfrentando problemas para os quais o capitalismo não é suficiente. Estou preparado para ser parte desse legado histórico da esquerda que se move um passo adiante da democracia”. Eis a reflexão chave do fim dos tempos, segundo Zizek: o espaço da sociedade como conhecemos está para terminar e é tempo para interpretações mais radicais.
* Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais.
Fonte: Brasil de Fato
Se o fim do capitalismo é visto por muitos como o fim do mundo, como a sociedade ocidental pode enfrentar este período de fim dos tempos?
Aleksander Aguilar*
O esloveno Slavoj Zizek se tornou uma celebridade das ciências humanas, uma espécie de pop star da filosofia. Rotulado como um dos principais teóricos contemporâneos no campo da crítica cultural e da análise de problemas da política internacional, Zizek desfruta dessa reputação, jogando o jogo que lhe foi montado, fazendo as vezes de intelectual excêntrico, polêmico e controvertido – um rol que não reduz nem o seu brilhantismo, nem a pertinência das suas ideias.
Filosofia e crítica cultural e política vinculam-se de maneira singular em seu trabalho, marcado por um estilo cheio de ironias e quase-sarcasmos. E, ao utilizar principalmente o cinema para ilustrar suas opiniões, ganhou notoriedade neste campo e se converteu em um especialista na análise da obra de David Lynch e Alfred Hitchcock. O intelectual, assim, galgou e encravou seu nome como critico de cultura. Mas é ao manter suas ideias ligadas ao horizonte do marxismo e do comunismo que Zizek firma sua importância no debate sobre a desintegração dos Estados socialistas, sobre globalização e papel da esquerda mundial. O comunismo de Zizek não tem, no entanto, nada que ver com as experiências sob este nome do século XX, senão o desafio de enfrentar, e resolver, os atuais grandes problemas da humanidade.
O FIM DOS TEMPOS
Na esteira do lançamento do seu mais recente livro, ainda sem título em português, “Living in the End Times“, Zizek participou como um dos principais destaques do London Literature Festival e de um longo debate na prestigiosa London School of Economics (LSE), em julho na Inglaterra.
Professor da Universidade de Lubliana (Eslovênia) e diretor internacional do Instituto de Humanidades da Birbeck, Universidade de Londres, Zizek também é psicanalista e notoriamente conhecido como um especialista em Jacques Lacan, o principal seguidor de Sigmund Freud. Viveu sua vida universitária no ambiente de formação da república socialista iugoslava. Logo da independência da Eslovênia, depois da queda da União Soviética, em 1991, foi candidato à presidência da República pelo partido liberal democrático esloveno.
Com a língua presa, mas afiada, Zizek, cheio de tiques nervosos, falou para um lotado auditório do Royal Albert Hall sobre seus quatro cavaleiros do apocalipse, aqueles que em sua opinião trazem o inquestionável fim do capitalismo: a crise ecológica mundial, os desequilíbrios do sistema econômico, a revolução biogenética e a explosão das divisões e rupturas sociais. Mas a pergunta base da reflexão é: se o fim do capitalismo é visto por muitos como o fim do mundo, como a sociedade ocidental pode enfrentar este período de fim dos tempos?
“Democracia não é suficiente”, dispara. Não se trata apenas do seu sentido conhecido de eleições pluripartidárias, de Estado de direito. Uma diferente mobilização sociopolítica é o lugar onde as mudanças deveriam acontecer, argumenta. Na opinião de Zizek, há uma sobrecarga de críticas vulgares anticapitalistas. Ao mesmo tempo, do outro lado desse fenômeno global, existem tentativas de legitimar um capitalismo ético pós-moderno que aposta em equilibrar um discurso de responsabilidade social e ecológica.
CAPITALISMO NATURAL
Para o filósofo esloveno, a referência mais presente disso é o chamado “capitalismo natural”. Trata-se do conjunto de ideias para uma reinvenção do capitalismo, expostas no livro encabeçado pelo economista estadunidense Paul Hawken, que ganhou dimensão de movimento. Ele propõe uma nova revolução na produção mundial comparável com a Primeira Revolução Industrial. Como seria a economia se ela fosse organizada não através das abstrações econômicas neoclássicas, mas sim das realidades biológicas da natureza?
Para contra-atacar as negligências do capitalismo industrial tradicional para com os recursos naturais e os sistemas vivos sociais e culturais, essa teoria propõe uma mudança na abordagem da produção mundial. De acordo com os autores, há quatro estratégias centrais para se chegar a uma nova revolução industrial: a conservação dos recursos através de uma manufatura mais efetiva dos processos de produção, a reutilização de materiais na forma como são encontrados nos sistemas naturais, uma mudança dos paradigmas de valorização da quantidade para a qualidade e uma restauração e a sustentabilidade dos recursos naturais.
Porém, Zizek afirma que, apesar de parecer que tamanha redefinição de capital seja eticamente benéfica, sua implementação demandaria, como mínimo, um controle e regulação estatais muito mais estritos; com agências governamentais definindo e implementando no mercado preços de commodities naturais. A estratégia do capitalismo natural é salvar o planeta dos problemas ecológicos para que tudo se torne uma commodity. Enquanto mantém a matriz do capitalismo – o lucro expandindo suas próprias formas de reprodução – propondo a salvação disso precisamente através dessa excessiva universalização, o núcleo central do problema permanece sendo a busca pelo lucro como a razão da reprodução econômica.
E se o capitalismo busca reinventar-se, Zizek, com o humor seco e duro que marcam seu estilo, não deixa nem mesmo Antonio Negri escapar da sua crítica. O filosofo esloveno desafia o conceito de “multidão” do italiano, que se baseia nas atuais subjetividades políticas para permitir-se afirmar que basta a eliminação do já parasitário capitalismo (segundo entende Negri) para alcançar o comunismo. “Todos os exemplos convincentes de multidão que Negri apresenta são exemplos de dentro do capitalismo. Não vejo então fundamento sobre como essa ideia de multidão pode ser trazida daí para a totalidade da sociedade. Onde a multidão realmente começa a funcionar por si mesma?”, questiona.
Para Zizek, um dos pontos-chaves da principal obra de Negri, Império (que se tornou uma espécie de manifesto do movimento antiglobalização), não se justifica. A noção de Estado-nação não está desaparecendo; pelo contrário, está ficando cada vez mais forte. O que deveria ser totalmente abandonado, na percepção do filósofo esloveno, não é apenas a perspectiva dos Estados socialistas na forma da esquerda do século XX – aquilo que se costuma chamar Estados comunistas –, mas também o chamado Estado social democrático de bem-estar.
E, para não perder a viagem, Zizek segue: “Apesar disso, eu estou com Negri contra Alain Badiou, porque meu problema com Baudiou é mesmo com a maioria dos filósofos políticos de orientação francesa, onde se inclui também Ernesto Laclau e outros. Vocês percebem como não há espaço no trabalho deles para o que Marx chama de crítica da economia política? Eles afirmam que economia não tem nada a ver com política. Nesse ponto eu concordo com Negri: a economia é a arena onde as batalhas devem ser travadas, vencidas ou perdidas”.
NOVA CONFIGURAÇÃO EUROPEIA
A necessidade do horizonte comunista é apontada por Zizek, por exemplo, no atual cenário da Europa Ocidental e Oriental onde há sinais de uma reacomodação política de longo prazo. Há até recentemente, o espaço político estava dominado por dois partidos principais que conseguiam atender todo o seu corpo eleitoral: uma força de centro-direita (cristãos-democráticos, conservadores-liberais) e uma força de centro-esquerda (socialistas, social-democratas).
Agora, vemos uma progressiva nova polaridade. Zizek identifica a emersão de um partido que se posiciona a favor do capitalismo globalizado, geralmente com relativa tolerância ao aborto, direitos homossexuais, religião e minorias étnicas. E, em oposição a esse partido, há um agrupamento popular anti-imigrantes cada vez mais forte, que está acompanhado diretamente por grupos neofascistas. Nesse ambiente de despolitização das administrações pós-ideológicas – que, para Zizek, conforma uma “dinâmica perigosa” –, a única maneira de mobilizar as pessoas é provocar o medo (ameaça imigrante, por exemplo).
É a partir dessa constatação que o esloveno afirma que apenas o fantasma da esquerda poderá salvar as liberdades do liberalismo que valem a pena serem salvas. “Quando debatemos com os liberais, não deveríamos dizer: ‘Ah, vocês são os inimigos burgueses, não discutimos como vocês!’. Deveríamos, sim, alertá-los. ‘Sim, nós também gostamos das suas liberdades, mas apenas uma esquerda bem estabelecida em longo prazo irá ajudar a salvar os aspectos dessas liberdades que valem a pena. Se não for assim, vocês irão perder cada vez mais espaço para a extrema direita’”.
APOCALIPSE ECOLÓGICO
O outro sinal desse fim dos tempos, a crise ecológica mundial, é também analisado por Zizek como um aspecto que pode ser considerado cínico na nossa realidade. O discurso de fazer a nossa parte está permeado de cinismo e pode tangenciar os grandes problemas causados pelas grandes empresas com a retórica do “consumo responsável e sustentável”. “Toda ideia de reciclar o lixo, poluir menos…, tem algo de superstição. É como olhar a Copa do Mundo e estar em frente à TV gritando incentivos aos jogadores. Sabemos que é absolutamente insignificante, mas ainda assim o fazemos”, compara.
Para Zizek, os problemas que o mundo enfrenta hoje não podem ser apenas tratados pelo “capitalismo melhorado”, ou natural, nem pelas instituições democráticas. Nesse sentido, ao fazer referência aos problemas comuns da humanidade, é que comunismo ainda deve ser utilizado. “Coisas tremendas precisam ser feitas. Tomemos como o exemplo, muito factível, o vulcão na Islândia. E se a explosão tivesse sido tão grande ao ponto de todo o território islandês tornar-se inabitável? Não teríamos mecanismos para resolver o que fazer com a sua população. Para onde iriam? Deveriam se dispersar por todo o planeta? Os deslocamentos de grandes grupos humanos, por conta das mudanças na natureza, são questões presentes e altamente complicadas para as quais não temos respostas”, provoca.
Isso é o que Zizek quer dizer com comunismo. O Estado liberal, no seu atual sentido jurídico-legal, com parlamento e Estado de direito, não é suficiente. “Eu não me refiro à volta do camarada Stalin. O comunismo do século XX foi uma das maiores tragédias da História. Eu apenas afirmo que nós estamos enfrentando problemas para os quais o capitalismo não é suficiente. Estou preparado para ser parte desse legado histórico da esquerda que se move um passo adiante da democracia”. Eis a reflexão chave do fim dos tempos, segundo Zizek: o espaço da sociedade como conhecemos está para terminar e é tempo para interpretações mais radicais.
* Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais.
Fonte: Brasil de Fato
Marcadores:
Aleksander Aguilar,
Brasil de Fato,
Texto
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
"Os indecisos decidem", de Sérgio da Costa Franco
Os indecisos decidem
Preocupam os efeitos indutores que as pesquisas de opinião podem exercer sobre a opinião dos eleitores, arrastando, por sugestão, o voto dos indecisos.
Sérgio da Costa Franco
As pesquisas de opinião prejudicam a emoção que outrora cercava os pleitos eleitorais.
Acompanhamos as eleições a partir de 1945 e era uma sensação aguardar a lenta divulgação dos resultados, naquela época que antecedeu a cédula única, quando se votava em papéis impressos com o nome dos candidatos, e as apurações implicavam morosa contagem. Às vezes, não se tinha a mais remota ideia das opções majoritárias. Mesmo quando um candidato disparava na frente, graças aos resultados das áreas urbanas, apuradas com primazia, os vencidos ficavam na expectativa da famosa “zona da mata”, onde os resultados seriam revertidos. Aos poucos, com os progressos da lei eleitoral e da tecnologia das apurações, desapareceu a “zona da mata”, ninguém espera pelo milagre das grandes viradas. Com a votação eletrônica, em 24 horas os resultados estão divulgados, tem-se que pagar as apostas perdidas, sem discussão, e desaparecem as emocionadas expectativas de vitória.
Com a novidade dos últimos decênios, que é a das antecipadas pesquisas de opinião, os pleitos eleitorais perderam ainda mais o seu poder de empolgar e de emocionar. Às vezes, com precedência de meses, já se sabe quem vai captar a maioria dos votos, e isso causa desânimo entre os disputantes com prognóstico de derrota e uma perigosa soberba entre os favoritos das pesquisas.
Não nos atraem essas sondagens, que às vezes são prematuras, quando não distorcidas ou tendenciosas. E sobretudo nos preocupam os efeitos indutores que elas podem exercer sobre a opinião dos eleitores, arrastando, por sugestão, o voto dos indecisos. Especialmente o modo de divulgar as cifras dessas sondagens mereceria os cuidados do legislador, para amenizar esse efeito arrastão, quando as pesquisas são prematuras e precipitadas.
Chamou-nos a atenção, nesta semana [texto de 22/8/2010], o resultado divulgado de uma sondagem do voto para governador do Estado: o preferido contaria 35%; o imediato nas sondagens, 24%; o terceiro, 10%. Ora, somados, esses números acusam um montante de 69% dos pesquisados. A ficha técnica da pesquisa indica que a amostra de entrevistados foi de apenas 800. Se, desses 800, só 69% opinaram decididamente, a amostra se reduziu a 552 eleitores, o que parece muito pouco.
Claro está que o percentual não computado, de 31% de indecisos, é suficiente para alterar completamente qualquer prognóstico. Trata-se, portanto, de uma pesquisa pífia, frustrada, incapaz de levar a qualquer conclusão segura. E que não deveria autorizar sequer um destaque na mídia.
Se 31% dos eleitores do Estado ainda estão indecisos na escolha do futuro governador, qualquer resultado pode acontecer, e tudo depende do desenvolvimento da campanha eleitoral que ainda se estenderá por mais de um mês.
Parece-nos que a legislação eleitoral deveria fixar regras mais rígidas para o registro e divulgação de pesquisas de opinião. Mas, enquanto inexistirem tais normas, cabe aos veículos de comunicação fazer a crítica dessas sondagens, mostrando, como no caso, o seu caráter inconsistente, pois, apesar da inconsistência, elas podem produzir um efeito indesejável de captação de votos.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16435, 22/8/2010.
Preocupam os efeitos indutores que as pesquisas de opinião podem exercer sobre a opinião dos eleitores, arrastando, por sugestão, o voto dos indecisos.
Sérgio da Costa Franco
As pesquisas de opinião prejudicam a emoção que outrora cercava os pleitos eleitorais.
Acompanhamos as eleições a partir de 1945 e era uma sensação aguardar a lenta divulgação dos resultados, naquela época que antecedeu a cédula única, quando se votava em papéis impressos com o nome dos candidatos, e as apurações implicavam morosa contagem. Às vezes, não se tinha a mais remota ideia das opções majoritárias. Mesmo quando um candidato disparava na frente, graças aos resultados das áreas urbanas, apuradas com primazia, os vencidos ficavam na expectativa da famosa “zona da mata”, onde os resultados seriam revertidos. Aos poucos, com os progressos da lei eleitoral e da tecnologia das apurações, desapareceu a “zona da mata”, ninguém espera pelo milagre das grandes viradas. Com a votação eletrônica, em 24 horas os resultados estão divulgados, tem-se que pagar as apostas perdidas, sem discussão, e desaparecem as emocionadas expectativas de vitória.
Com a novidade dos últimos decênios, que é a das antecipadas pesquisas de opinião, os pleitos eleitorais perderam ainda mais o seu poder de empolgar e de emocionar. Às vezes, com precedência de meses, já se sabe quem vai captar a maioria dos votos, e isso causa desânimo entre os disputantes com prognóstico de derrota e uma perigosa soberba entre os favoritos das pesquisas.
Não nos atraem essas sondagens, que às vezes são prematuras, quando não distorcidas ou tendenciosas. E sobretudo nos preocupam os efeitos indutores que elas podem exercer sobre a opinião dos eleitores, arrastando, por sugestão, o voto dos indecisos. Especialmente o modo de divulgar as cifras dessas sondagens mereceria os cuidados do legislador, para amenizar esse efeito arrastão, quando as pesquisas são prematuras e precipitadas.
Chamou-nos a atenção, nesta semana [texto de 22/8/2010], o resultado divulgado de uma sondagem do voto para governador do Estado: o preferido contaria 35%; o imediato nas sondagens, 24%; o terceiro, 10%. Ora, somados, esses números acusam um montante de 69% dos pesquisados. A ficha técnica da pesquisa indica que a amostra de entrevistados foi de apenas 800. Se, desses 800, só 69% opinaram decididamente, a amostra se reduziu a 552 eleitores, o que parece muito pouco.
Claro está que o percentual não computado, de 31% de indecisos, é suficiente para alterar completamente qualquer prognóstico. Trata-se, portanto, de uma pesquisa pífia, frustrada, incapaz de levar a qualquer conclusão segura. E que não deveria autorizar sequer um destaque na mídia.
Se 31% dos eleitores do Estado ainda estão indecisos na escolha do futuro governador, qualquer resultado pode acontecer, e tudo depende do desenvolvimento da campanha eleitoral que ainda se estenderá por mais de um mês.
Parece-nos que a legislação eleitoral deveria fixar regras mais rígidas para o registro e divulgação de pesquisas de opinião. Mas, enquanto inexistirem tais normas, cabe aos veículos de comunicação fazer a crítica dessas sondagens, mostrando, como no caso, o seu caráter inconsistente, pois, apesar da inconsistência, elas podem produzir um efeito indesejável de captação de votos.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16435, 22/8/2010.
Marcadores:
Sérgio da Costa Franco,
Texto,
Zero Hora
"Indiretas já!", de Flávio Tavares
Indiretas já!
Corre-se o risco de que a eleição vire o oposto do que deve ser e, em vez de comandar o processo de escolha, passe a ser comandada pela “pesquisa antecipada”. Ou seja, a pesquisa substitui-se à eleição.
Flávio Tavares
Quatro anos atrás, em 2006, L. F. Verissimo fez uma irônica advertência à campanha eleitoral da época: tantas são as “pesquisas” de intenção de voto, que a eleição parece algo supérfluo, escreveu. Agora, em 2010, a constatação de sua verve de pensador profundo (que extrai grandes verdades das coisas simples) continua presente e até avança.
Mais do que a eleição em si, as “pesquisas” dominam a atenção. Imprensa, rádio e TV destacam previsões de “institutos”, como num torneio de adivinhação. O eleitor, bombardeado por essa tosca futurologia, não avalia os candidatos e só mira o apregoado final. Os novos cartomantes igualam a eleição à aposta em carreira de cavalos.
Assim, noutro ambiente e com outros meios, retrocedemos, em parte, às eleições indiretas da ditadura, que nem eleições eram, mas nomeações impostas, convalidadas pelo tal “colégio eleitoral”. Em 1985, a campanha pelas “diretas já” mobilizou milhões de jovens que jamais haviam votado em presidente e governador. Queriam exercer um direito essencial – votar livremente, sem interferências.
Restabelecida a eleição direta, outro tipo de interferência leva, agora, a um retrocesso. Sem saber, absortos pelas “pesquisas”, estamos todos envolvidos em convalidar novo e bizarro tipo de eleição indireta.
Antes, o Congresso escolhia o presidente da República. Agora, quem busca ter essa tarefa são os “institutos” de pesquisa, que nem institutos são, mas empresas destinadas ao lucro. Não são instituições científicas de pesquisa, como as universidades, por exemplo. Ao contrário, são empresas que usam tudo (de artifícios à verdade) para chegar ao que foi encomendado pelo cliente contratado por dinheiro.
Como as “pesquisas” chegam aos resultados? Qual o método ou a metodologia de escolha dos entrevistados? Pode-se saber? Ou é segredo, como a fórmula da Coca-Cola?
Nem sequer sabemos quem nos “representa”. Antes, pelo menos, sabíamos que o deputado fulano e o senador beltrano escolhiam por nós e em nosso nome. Agora, somos “representados” por anônimos. Gente desconhecida que vota antecipadamente por nós, que nos “representa” sem nos representar. E, assim, nos comanda.
Não há nada de científico em que duas mil pessoas escolham em nome de 120 milhões de eleitores. Onde foram selecionadas essas pessoas? Quem são? Quem de nós conhece alguma delas?
Nessa simplificação numérica, quem está em perigo é o sistema democrático. Todos os candidatos deveriam rebelar-se contra essa forma de explorar a sensibilidade do eleitor e transformá-lo em mosca que esvoaça direto ao mel.
A eleição em si é a única pesquisa. Foi instituída para pesquisar a preferência popular.
Agora, corre-se o risco de que a eleição vire o oposto do que deve ser e, em vez de comandar o processo de escolha, passe a ser comandada pela “pesquisa antecipada”. Ou seja, a pesquisa substitui-se à eleição.
A finalidade da campanha eleitoral é que o eleitor conheça o candidato pelo que pensa hoje e pelo que fez ontem, para que o passado seja fiador do futuro. A campanha eleitoral só tem sentido para fazer crescer o nível do eleitor, libertando-o da condição de objeto, de máquina que aperta botões de outra máquina – a urna eletrônica.
Fora disso, já ninguém precisará sair à rua para pedir indiretas já! Como advertia nosso L. F. Verissimo, a eleição torna-se supérflua quando a “pesquisa” é quem guia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16435, 22/8/2010.
Corre-se o risco de que a eleição vire o oposto do que deve ser e, em vez de comandar o processo de escolha, passe a ser comandada pela “pesquisa antecipada”. Ou seja, a pesquisa substitui-se à eleição.
Flávio Tavares
Quatro anos atrás, em 2006, L. F. Verissimo fez uma irônica advertência à campanha eleitoral da época: tantas são as “pesquisas” de intenção de voto, que a eleição parece algo supérfluo, escreveu. Agora, em 2010, a constatação de sua verve de pensador profundo (que extrai grandes verdades das coisas simples) continua presente e até avança.
Mais do que a eleição em si, as “pesquisas” dominam a atenção. Imprensa, rádio e TV destacam previsões de “institutos”, como num torneio de adivinhação. O eleitor, bombardeado por essa tosca futurologia, não avalia os candidatos e só mira o apregoado final. Os novos cartomantes igualam a eleição à aposta em carreira de cavalos.
Assim, noutro ambiente e com outros meios, retrocedemos, em parte, às eleições indiretas da ditadura, que nem eleições eram, mas nomeações impostas, convalidadas pelo tal “colégio eleitoral”. Em 1985, a campanha pelas “diretas já” mobilizou milhões de jovens que jamais haviam votado em presidente e governador. Queriam exercer um direito essencial – votar livremente, sem interferências.
Restabelecida a eleição direta, outro tipo de interferência leva, agora, a um retrocesso. Sem saber, absortos pelas “pesquisas”, estamos todos envolvidos em convalidar novo e bizarro tipo de eleição indireta.
Antes, o Congresso escolhia o presidente da República. Agora, quem busca ter essa tarefa são os “institutos” de pesquisa, que nem institutos são, mas empresas destinadas ao lucro. Não são instituições científicas de pesquisa, como as universidades, por exemplo. Ao contrário, são empresas que usam tudo (de artifícios à verdade) para chegar ao que foi encomendado pelo cliente contratado por dinheiro.
Como as “pesquisas” chegam aos resultados? Qual o método ou a metodologia de escolha dos entrevistados? Pode-se saber? Ou é segredo, como a fórmula da Coca-Cola?
Nem sequer sabemos quem nos “representa”. Antes, pelo menos, sabíamos que o deputado fulano e o senador beltrano escolhiam por nós e em nosso nome. Agora, somos “representados” por anônimos. Gente desconhecida que vota antecipadamente por nós, que nos “representa” sem nos representar. E, assim, nos comanda.
Não há nada de científico em que duas mil pessoas escolham em nome de 120 milhões de eleitores. Onde foram selecionadas essas pessoas? Quem são? Quem de nós conhece alguma delas?
Nessa simplificação numérica, quem está em perigo é o sistema democrático. Todos os candidatos deveriam rebelar-se contra essa forma de explorar a sensibilidade do eleitor e transformá-lo em mosca que esvoaça direto ao mel.
A eleição em si é a única pesquisa. Foi instituída para pesquisar a preferência popular.
Agora, corre-se o risco de que a eleição vire o oposto do que deve ser e, em vez de comandar o processo de escolha, passe a ser comandada pela “pesquisa antecipada”. Ou seja, a pesquisa substitui-se à eleição.
A finalidade da campanha eleitoral é que o eleitor conheça o candidato pelo que pensa hoje e pelo que fez ontem, para que o passado seja fiador do futuro. A campanha eleitoral só tem sentido para fazer crescer o nível do eleitor, libertando-o da condição de objeto, de máquina que aperta botões de outra máquina – a urna eletrônica.
Fora disso, já ninguém precisará sair à rua para pedir indiretas já! Como advertia nosso L. F. Verissimo, a eleição torna-se supérflua quando a “pesquisa” é quem guia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16435, 22/8/2010.
Marcadores:
Flávio Tavares,
Texto,
Zero Hora
terça-feira, 17 de agosto de 2010
"Viva o imperialismo", de David Coimbra
Viva o imperialismo
Tenha coragem, veja a foto da capa da Time. E diga se não existe limite para a autodeterminação dos povos.
David Coimbra
Esses partidos que gritam “abaixo o imperialismo!”. Não voto neles. Sou a favor do imperialismo. Do verdadeiro imperialismo, não o de fachada. Hitler, por exemplo, não era um imperialista. Ao contrário: tratava-se de um nacionalista empedernido e atrasado, como são os nacionalistas. Queria que o mundo todo fosse da Alemanha. Não me importaria de viver em um lugar que pertencesse à Alemanha, desde que fosse tratado como um alemão. Não era essa a ideia de Hitler. Ele pretendia submeter os outros povos ao povo alemão. Um falso imperialista.
Os romanos foram os primeiros conquistadores a terem uma noção correta de imperialismo. Instituíram a “Pax Romana”. Em tese, todos os povos reunidos no império deveriam gozar de segurança e bem-estar. O problema é que havia cidadãos de segunda classe, os não-romanos, que, não por acaso, os romanos chamavam de bárbaros.
Mais tarde, a Revolução Francesa tentou implantar o imperialismo e, no princípio, obteve algum sucesso. Muitos povos da Europa receberam Napoleão e seus soldados como libertadores, mas depois eram tratados como os romanos tratavam os bárbaros. Reagiram da pior forma: tornando-se nacionalistas. Foi a origem do acerbado nacionalismo alemão e das duas guerras mundiais.
Os alemães aprenderam com a dor da guerra. Tornaram-se mais tolerantes, mais abertos. Menos nacionalistas. Lideraram a criação da Comunidade Europeia, que, na prática, realiza o sonho de Napoleão. Mas a CE ainda não é o verdadeiro imperialismo. O verdadeiro imperialismo é o do mundo inteiro. Por que preciso de passaporte para ir de um lugar a outro? Que direito alguém tem de me impedir de sair daqui para lá? O tão citado “direito de ir e vir” não pode se restringir a uma fronteira artificial, que alguém estabeleceu sem nem me consultar. Tenho esse direito, todos têm. É um direito universal.
Há outros. A intocabilidade do corpo talvez seja o mais sagrado deles. Um Estado que viola esse direito deve sofrer intervenção externa. Vi na capa da revista Time a foto da afegã que teve as orelhas e o nariz amputados pelos talibãs por ter fugido da casa do marido. Era uma menina linda. Ainda é. Em meio à entrevista, disse uma frase singela e crua aos jornalistas:
— Tudo o que eu queria era o meu nariz de volta.

A Time alega que esse é um dos motivos para que os americanos continuem com a guerra no Afeganistão. É um ótimo motivo. Mulheres mutiladas ou obrigadas a se cobrir da cabeça aos pés, meninas castradas, homossexuais apedrejados, pais de família espancados diante dos filhos, tudo isso justifica o imperialismo. Tenha coragem, veja a foto da capa da Time. E diga se não existe limite para a autodeterminação dos povos.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16426, 13/8/2010.
Tenha coragem, veja a foto da capa da Time. E diga se não existe limite para a autodeterminação dos povos.
David Coimbra
Esses partidos que gritam “abaixo o imperialismo!”. Não voto neles. Sou a favor do imperialismo. Do verdadeiro imperialismo, não o de fachada. Hitler, por exemplo, não era um imperialista. Ao contrário: tratava-se de um nacionalista empedernido e atrasado, como são os nacionalistas. Queria que o mundo todo fosse da Alemanha. Não me importaria de viver em um lugar que pertencesse à Alemanha, desde que fosse tratado como um alemão. Não era essa a ideia de Hitler. Ele pretendia submeter os outros povos ao povo alemão. Um falso imperialista.
Os romanos foram os primeiros conquistadores a terem uma noção correta de imperialismo. Instituíram a “Pax Romana”. Em tese, todos os povos reunidos no império deveriam gozar de segurança e bem-estar. O problema é que havia cidadãos de segunda classe, os não-romanos, que, não por acaso, os romanos chamavam de bárbaros.
Mais tarde, a Revolução Francesa tentou implantar o imperialismo e, no princípio, obteve algum sucesso. Muitos povos da Europa receberam Napoleão e seus soldados como libertadores, mas depois eram tratados como os romanos tratavam os bárbaros. Reagiram da pior forma: tornando-se nacionalistas. Foi a origem do acerbado nacionalismo alemão e das duas guerras mundiais.
Os alemães aprenderam com a dor da guerra. Tornaram-se mais tolerantes, mais abertos. Menos nacionalistas. Lideraram a criação da Comunidade Europeia, que, na prática, realiza o sonho de Napoleão. Mas a CE ainda não é o verdadeiro imperialismo. O verdadeiro imperialismo é o do mundo inteiro. Por que preciso de passaporte para ir de um lugar a outro? Que direito alguém tem de me impedir de sair daqui para lá? O tão citado “direito de ir e vir” não pode se restringir a uma fronteira artificial, que alguém estabeleceu sem nem me consultar. Tenho esse direito, todos têm. É um direito universal.
Há outros. A intocabilidade do corpo talvez seja o mais sagrado deles. Um Estado que viola esse direito deve sofrer intervenção externa. Vi na capa da revista Time a foto da afegã que teve as orelhas e o nariz amputados pelos talibãs por ter fugido da casa do marido. Era uma menina linda. Ainda é. Em meio à entrevista, disse uma frase singela e crua aos jornalistas:
— Tudo o que eu queria era o meu nariz de volta.

A Time alega que esse é um dos motivos para que os americanos continuem com a guerra no Afeganistão. É um ótimo motivo. Mulheres mutiladas ou obrigadas a se cobrir da cabeça aos pés, meninas castradas, homossexuais apedrejados, pais de família espancados diante dos filhos, tudo isso justifica o imperialismo. Tenha coragem, veja a foto da capa da Time. E diga se não existe limite para a autodeterminação dos povos.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16426, 13/8/2010.
Marcadores:
David Coimbra,
Texto,
Zero Hora
"Maconha, porta de saída?", de Marcos Rolim
Maconha, porta de saída?
O uso medicinal da maconha tem sido admitido em dezenas de países, inclusive nos EUA. Por aqui, o tema segue interditado pela irracionalidade.
Marcos Rolim
A epidemia de crack é um dos fenômenos mais sérios na interface entre saúde pública e segurança. O que a faz particularmente grave é a reconhecida dificuldade de superar a dependência química. Pois bem, a Universidade Federal de São Paulo realizou pesquisa com 50 dependentes químicos de crack que foram submetidos a um tratamento experimental de redução de danos. Sob a coordenação do psiquiatra Dartiu Xavier, o grupo foi tratado com maconha. Daquele total, 68% trocou o crack pela maconha. Ao final de três anos, todos os que fizeram a troca não usavam mais qualquer droga (nem o crack, nem a maconha). Anotem aí: todos.
Imaginei que, com a divulgação destes resultados por Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo em 24 de maio, haveria grande interesse sobre o estudo. Nada. A resposta ao mais impressionante resultado de superação da dependência de crack no Brasil foi o silêncio. O uso medicinal da maconha tem sido admitido em dezenas de países, inclusive nos EUA. Por aqui, o tema segue interditado pela irracionalidade. É evidente que o consumo de maconha pode produzir efeitos danosos. Sabe-se que o abuso pode conduzir o usuário a problemas de concentração e memória e que em determinadas pessoas o uso está correlacionado à precipitação de surtos esquizofrênicos. Daí a criminalizar seu consumo e impedir experiências destinadas ao uso medicinal vai uma distância que tende a ser percorrida pela intolerância e pelo obscurantismo.
O psicofarmacologista Eduardo Carlini sustenta que o princípio ativo da maconha pode ser útil no combate à depressão e ao estresse. O mesmo tem sido dito por cientistas quanto ao tratamento do glaucoma, da rigidez muscular causado pela esclerose múltipla, ou como apoio aos pacientes com AIDS, aos que sofrem do mal de Parkinson e aos que se submetem à quimioterapia em casos de câncer. Estudo da USP com pacientes que ingeriram cápsulas de canabidiol, um dos compostos encontrados na erva, demonstrou resultados positivos no tratamento da fobia social e na redução da ansiedade.
As oportunidades abertas por estudos do tipo, entretanto, assim como a necessária pesquisa, estão impugnadas no Brasil por um discurso preconceituoso e por uma legislação ineficiente e estúpida. Seguimos repetindo que a maconha é “a porta de entrada” para o consumo de drogas mais pesadas, o que pode traduzir tão-somente uma “falácia ecológica” (quando se deduz erroneamente a partir de características agregadas de um grupo), vez que o universo de consumidores de maconha é muitas vezes superior ao grupo dos dependentes de drogas pesadas que se iniciaram pela cannabis. Em outras palavras: é possível que a maconha seja mais amplamente uma opção alternativa às drogas pesadas e não uma droga de passagem. Independentemente disto, é possível que a maconha seja uma porta de saída para a dependência química por drogas pesadas. O que, se confirmado, será uma ótima notícia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16414, 1/8/2010.
O uso medicinal da maconha tem sido admitido em dezenas de países, inclusive nos EUA. Por aqui, o tema segue interditado pela irracionalidade.
Marcos Rolim
A epidemia de crack é um dos fenômenos mais sérios na interface entre saúde pública e segurança. O que a faz particularmente grave é a reconhecida dificuldade de superar a dependência química. Pois bem, a Universidade Federal de São Paulo realizou pesquisa com 50 dependentes químicos de crack que foram submetidos a um tratamento experimental de redução de danos. Sob a coordenação do psiquiatra Dartiu Xavier, o grupo foi tratado com maconha. Daquele total, 68% trocou o crack pela maconha. Ao final de três anos, todos os que fizeram a troca não usavam mais qualquer droga (nem o crack, nem a maconha). Anotem aí: todos.
Imaginei que, com a divulgação destes resultados por Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo em 24 de maio, haveria grande interesse sobre o estudo. Nada. A resposta ao mais impressionante resultado de superação da dependência de crack no Brasil foi o silêncio. O uso medicinal da maconha tem sido admitido em dezenas de países, inclusive nos EUA. Por aqui, o tema segue interditado pela irracionalidade. É evidente que o consumo de maconha pode produzir efeitos danosos. Sabe-se que o abuso pode conduzir o usuário a problemas de concentração e memória e que em determinadas pessoas o uso está correlacionado à precipitação de surtos esquizofrênicos. Daí a criminalizar seu consumo e impedir experiências destinadas ao uso medicinal vai uma distância que tende a ser percorrida pela intolerância e pelo obscurantismo.
O psicofarmacologista Eduardo Carlini sustenta que o princípio ativo da maconha pode ser útil no combate à depressão e ao estresse. O mesmo tem sido dito por cientistas quanto ao tratamento do glaucoma, da rigidez muscular causado pela esclerose múltipla, ou como apoio aos pacientes com AIDS, aos que sofrem do mal de Parkinson e aos que se submetem à quimioterapia em casos de câncer. Estudo da USP com pacientes que ingeriram cápsulas de canabidiol, um dos compostos encontrados na erva, demonstrou resultados positivos no tratamento da fobia social e na redução da ansiedade.
As oportunidades abertas por estudos do tipo, entretanto, assim como a necessária pesquisa, estão impugnadas no Brasil por um discurso preconceituoso e por uma legislação ineficiente e estúpida. Seguimos repetindo que a maconha é “a porta de entrada” para o consumo de drogas mais pesadas, o que pode traduzir tão-somente uma “falácia ecológica” (quando se deduz erroneamente a partir de características agregadas de um grupo), vez que o universo de consumidores de maconha é muitas vezes superior ao grupo dos dependentes de drogas pesadas que se iniciaram pela cannabis. Em outras palavras: é possível que a maconha seja mais amplamente uma opção alternativa às drogas pesadas e não uma droga de passagem. Independentemente disto, é possível que a maconha seja uma porta de saída para a dependência química por drogas pesadas. O que, se confirmado, será uma ótima notícia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16414, 1/8/2010.
Marcadores:
Drogas,
Marcos Rolim,
Texto,
Zero Hora
sexta-feira, 30 de julho de 2010
"A propaganda funciona", de David Coimbra
A propaganda funciona
Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.
David Coimbra
Ninguém gosta de quem não gosta de si mesmo. As pessoas pensam: “Se ele que é ele, que se conhece desde que nasceu, que convive com a pessoa dele todos os dias e o dia inteiro, que conhece o seu passado de memória, se ele não gosta dele, por que eu, que não disponho dessas informações, vou gostar?”.
Mas também acontece o contrário: alguém que gosta muitíssimo de si mesmo influencia as outras pessoas a seu favor. Observe um respirante qualquer que seja muito confiante, que seja seguro de si. Um desses que estão sempre se elogiando. Os outros olham para ele e pensam: deve haver algum motivo para toda essa presunção. Não é possível alguém se amar tanto, se não tiver nada de especial. E, assim, os outros têm a tendência de gostar do exibido.
É o princípio da propaganda. A propaganda funciona. O que diz muito sobre a natureza do ser humano, sobre como o ser humano é intrinsecamente bom. Ou ingênuo, você escolhe. Afinal, pela lógica, as pessoas deveriam desconfiar da propaganda, já que a propaganda, na essência, é a autoexaltação e quem se autoexalta, bem, SE exalta.
O genial da coisa é que a propaganda não precisa de argumentação coerente, não precisa ser comprovada pela realidade; precisa apenas de repetição. É algo que se sabe bem antes de Goebbels ter dito que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade. Há mais ou menos 2.200 anos, Catão, o Grande, sempre encerrava seus discursos no senado romano com a mesma frase:
— Delenda est Carthago!
Ou: Cartago deve ser destruída.
Podia discursar sobre a tepidez das águas das termas do Palatino; podia falar das sacanagens na Suburra, que era o bairro do pecado; podia discorrer sobre o lendário Lúcius Cincinatus, que milênios mais tarde emprestaria o nome a uma cidade de Ohio; podia discursar a respeito de qualquer coisa, o Catão, que concluía assim:
— Além disso, acrescento: Cartago deve ser destruída!
Catão repetiu tanto essa frase, tanto, tanto, que os romanos começaram a cogitar se de fato ele tinha razão. Concluíram que sim, atravessaram o Mediterrâneo, irromperam no Norte da África, arrasaram Cartago pela raiz e salgaram-lhe o solo calcinado para que dele nada mais nascesse.
A propaganda funciona.
Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.
São as crianças.
Diria mais: diria para esquecerem os adultos. Para que não construam mais presídios, para que não gastem mais em energia, para que esqueçam as comunicações, para que só pensem nas crianças. As crianças, as crianças, as crianças.
Salvem as crianças.
Salvarão o Brasil.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16412, 30/7/2010.
Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.
David Coimbra
Ninguém gosta de quem não gosta de si mesmo. As pessoas pensam: “Se ele que é ele, que se conhece desde que nasceu, que convive com a pessoa dele todos os dias e o dia inteiro, que conhece o seu passado de memória, se ele não gosta dele, por que eu, que não disponho dessas informações, vou gostar?”.
Mas também acontece o contrário: alguém que gosta muitíssimo de si mesmo influencia as outras pessoas a seu favor. Observe um respirante qualquer que seja muito confiante, que seja seguro de si. Um desses que estão sempre se elogiando. Os outros olham para ele e pensam: deve haver algum motivo para toda essa presunção. Não é possível alguém se amar tanto, se não tiver nada de especial. E, assim, os outros têm a tendência de gostar do exibido.
É o princípio da propaganda. A propaganda funciona. O que diz muito sobre a natureza do ser humano, sobre como o ser humano é intrinsecamente bom. Ou ingênuo, você escolhe. Afinal, pela lógica, as pessoas deveriam desconfiar da propaganda, já que a propaganda, na essência, é a autoexaltação e quem se autoexalta, bem, SE exalta.
O genial da coisa é que a propaganda não precisa de argumentação coerente, não precisa ser comprovada pela realidade; precisa apenas de repetição. É algo que se sabe bem antes de Goebbels ter dito que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade. Há mais ou menos 2.200 anos, Catão, o Grande, sempre encerrava seus discursos no senado romano com a mesma frase:
— Delenda est Carthago!
Ou: Cartago deve ser destruída.
Podia discursar sobre a tepidez das águas das termas do Palatino; podia falar das sacanagens na Suburra, que era o bairro do pecado; podia discorrer sobre o lendário Lúcius Cincinatus, que milênios mais tarde emprestaria o nome a uma cidade de Ohio; podia discursar a respeito de qualquer coisa, o Catão, que concluía assim:
— Além disso, acrescento: Cartago deve ser destruída!
Catão repetiu tanto essa frase, tanto, tanto, que os romanos começaram a cogitar se de fato ele tinha razão. Concluíram que sim, atravessaram o Mediterrâneo, irromperam no Norte da África, arrasaram Cartago pela raiz e salgaram-lhe o solo calcinado para que dele nada mais nascesse.
A propaganda funciona.
Tivesse eu a magnitude de um Catão, repetiria todos os dias: o importante para o Brasil é a educação básica.
São as crianças.
Diria mais: diria para esquecerem os adultos. Para que não construam mais presídios, para que não gastem mais em energia, para que esqueçam as comunicações, para que só pensem nas crianças. As crianças, as crianças, as crianças.
Salvem as crianças.
Salvarão o Brasil.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16412, 30/7/2010.
Marcadores:
David Coimbra,
Texto,
Zero Hora
"A fé de uns e de outros", de Martha Medeiros
A fé de uns e de outros
Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.
Martha Medeiros
Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba [texto de 25/7/2010] de ser aprovado na Argentina.
Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?
No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.
Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.
Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16407, 25/7/2010.
Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.
Martha Medeiros
Apoio que as pessoas se manifestem publicamente contra a violência urbana, contra os altos impostos que não são revertidos em benefícios sociais, contra a corrupção, contra a injustiça, contra o descaso com o meio ambiente, enfim, contra tudo o que prejudica o desenvolvimento da sociedade e o bem-estar pessoal de cada um. No entanto, tenho dificuldade de entender a mobilização, geralmente furiosa, contra escolhas particulares que não afetam em nada a vida de ninguém, a não ser aos diretamente envolvidos, caso da legalização do casamento gay, que acaba [texto de 25/7/2010] de ser aprovado na Argentina.
Se dois homens ou duas mulheres desejam viver amparados por todos os direitos civis que um casal hétero dispõe, em que isso atrapalha a minha vida ou a sua? Estarão eles matando, roubando, praticando algum crime? No caso de poderem adotar crianças, seria mais saudável elas serem criadas em orfanatos do que num lar afetivo? Ou será que se está temendo que a legalização seja um estímulo para os indecisos? Ora, a homossexualidade faz parte da natureza humana, não é um passatempo, um modismo. É um fato: algumas pessoas se sentem atraídas – e se apaixonam – por parceiros do mesmo sexo. Acontece desde que o mundo é mundo. E se por acaso um filho ou neto nosso tiver essa mesma inclinação, é preferível que ele cresça numa sociedade que não o estigmatize. Ou é lenda que queremos o melhor para nossos filhos?
No entanto, o que a mim parece lógico, não passa de um pântano para grande parcela da sociedade, principalmente para os católicos praticantes. Entendo e respeito o incômodo que sentem com a situação, que é contrária às diretrizes do Senhor, mas na minha santa inocência, ainda acredito que religião deveria servir apenas para promover o amor e a paz de espírito. Se for para promover a culpa e decretar que quem é diferente deve arder no fogo do inferno, então que conforto é esse que a religião promete? Não quero a vida eterna ao custo de subjugar quem nunca me fez mal. Prefiro vida com prazo delimitado, porém vivida em harmonia.
Sei que sou uma desastrada em tocar num assunto que deixa meio mundo alterado. Daqui a cinco minutos minha caixa de e-mails estará lotada de agressões, mas me concedam o direito ao idealismo, que estou tentando transmitir com a maior doçura possível: não há nada que faça com que a homossexualidade desapareça como um passe de mágica, ela é inerente a diversos seres humanos e um dia será aceita sem tanto conflito. Só por cima do seu cadáver? Será por cima do cadáver de todos nós, tenha certeza. Claro que ninguém precisa ser conivente com o que lhe choca, mas é mais produtivo batalhar pela erradicação do que torna nossa vida ruim, do que se sentir ameaçado por um preconceito, que é algo tão abstrato.
Pode rir, mas às vezes acho que acredito mais em Deus do que muito cristão.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16407, 25/7/2010.
Marcadores:
Martha Medeiros,
Texto,
Zero Hora
"A vida em slow", de Martha Medeiros
A vida em slow
Não há quem não se deslumbre com imagens repousantes nesse mundo que, quando em rotação normal, é frenético demais.
Martha Medeiros
Nem a encrenqueira Jabulani, nem o performático Maradona, nem a justa vibração espanhola. O que mais atraiu minha atenção na Copa que passou (e não se fala mais nisso, prometo) foram as cenas em slow motion. Aliás, very slow, passando a sensação de que a vida pode ser delicada em qualquer circunstância. Até mesmo o atrito violento entre os corpos ganhava suavidade e nada parecia doer. Nada. Não há quem não se deslumbre com imagens repousantes nesse mundo que, quando em rotação normal, é frenético demais.
Sempre fui fascinada por cenas em câmera lenta, principalmente quando utilizada para buscar poesia onde nem pressupomos que ela exista. Em cenas de guerra, por exemplo. Lembro de um filme que mostrava em slow os soldados sendo atingidos por granadas, voando junto com os estilhaços ao som de rock pesado. Brutalidade embrulhada em papel de seda. Clichê ou não, funciona.
Tanto funciona que ficamos naturalmente fascinados pelas poucas coisas da vida que são slow ao natural, a olho nu. Você já reparou?
Ondas, por exemplo, jamais são apressadas. Elas se formam com vagar, como se soubessem que participam de um espetáculo, e depois quebram demoradamente, fechando-se em si mesmas, femininas, recatadas, soltando sua espuma e suas gotas em uma coreografia ensaiada que sempre extasia. Na beira da praia ou em alto mar, em dia de calmaria e mesmo em dia de fúria, as águas nunca são aceleradas, elas sabem que são donas de um raro efeito especial.
A mesma coisa com transporte aéreo. A cidade pode estar em velocidade máxima, os carros zunindo pela avenida, pessoas correndo de um lado para o outro nas ruas, e então surge aquela espaçonave branca atravessando o céu, decolando ou aterrissando, num ritmo tão lento que custamos a acreditar que consiga se manter no ar sem despencar. Não despencam. Nem disparam. Mantém-se em slow. Planam, como pássaros que também são.
As girafas não impressionam apenas pelo tamanho incomum do pescoço, mas porque caminham num molejo baiano, não acompanham o frenesi da selva, não possuem pressa para nada, são majestosamente demoradas, assim como os polvos, que ganharam surpreendente notoriedade esse ano.
Não ter urgência, meditar como um buda, praticar Tai Chi Chuan. Me corrija se eu estiver errada: a paciência é o sentimento mais slow motion que existe.
O fogo da lareira, a chama da vela, a fumaça do cigarro, a tragada: a vida queima em marcha lenta.
Os domingos caudalosos. O beijo apaixonado, deliciosamente arrastado… assim como as reticências…
E fim de brandura. O resto é vida veloz.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16400, 18/7/2010.
Não há quem não se deslumbre com imagens repousantes nesse mundo que, quando em rotação normal, é frenético demais.
Martha Medeiros
Nem a encrenqueira Jabulani, nem o performático Maradona, nem a justa vibração espanhola. O que mais atraiu minha atenção na Copa que passou (e não se fala mais nisso, prometo) foram as cenas em slow motion. Aliás, very slow, passando a sensação de que a vida pode ser delicada em qualquer circunstância. Até mesmo o atrito violento entre os corpos ganhava suavidade e nada parecia doer. Nada. Não há quem não se deslumbre com imagens repousantes nesse mundo que, quando em rotação normal, é frenético demais.
Sempre fui fascinada por cenas em câmera lenta, principalmente quando utilizada para buscar poesia onde nem pressupomos que ela exista. Em cenas de guerra, por exemplo. Lembro de um filme que mostrava em slow os soldados sendo atingidos por granadas, voando junto com os estilhaços ao som de rock pesado. Brutalidade embrulhada em papel de seda. Clichê ou não, funciona.
Tanto funciona que ficamos naturalmente fascinados pelas poucas coisas da vida que são slow ao natural, a olho nu. Você já reparou?
Ondas, por exemplo, jamais são apressadas. Elas se formam com vagar, como se soubessem que participam de um espetáculo, e depois quebram demoradamente, fechando-se em si mesmas, femininas, recatadas, soltando sua espuma e suas gotas em uma coreografia ensaiada que sempre extasia. Na beira da praia ou em alto mar, em dia de calmaria e mesmo em dia de fúria, as águas nunca são aceleradas, elas sabem que são donas de um raro efeito especial.
A mesma coisa com transporte aéreo. A cidade pode estar em velocidade máxima, os carros zunindo pela avenida, pessoas correndo de um lado para o outro nas ruas, e então surge aquela espaçonave branca atravessando o céu, decolando ou aterrissando, num ritmo tão lento que custamos a acreditar que consiga se manter no ar sem despencar. Não despencam. Nem disparam. Mantém-se em slow. Planam, como pássaros que também são.
As girafas não impressionam apenas pelo tamanho incomum do pescoço, mas porque caminham num molejo baiano, não acompanham o frenesi da selva, não possuem pressa para nada, são majestosamente demoradas, assim como os polvos, que ganharam surpreendente notoriedade esse ano.
Não ter urgência, meditar como um buda, praticar Tai Chi Chuan. Me corrija se eu estiver errada: a paciência é o sentimento mais slow motion que existe.
O fogo da lareira, a chama da vela, a fumaça do cigarro, a tragada: a vida queima em marcha lenta.
Os domingos caudalosos. O beijo apaixonado, deliciosamente arrastado… assim como as reticências…
E fim de brandura. O resto é vida veloz.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16400, 18/7/2010.
Marcadores:
Martha Medeiros,
Texto,
Zero Hora
"O faroeste e a marchinha", de Cláudia Laitano
O faroeste e a marchinha
Para a democracia sobreviver, sugere o filme “O Homem que Matou o Facínora”, não basta Congresso: é preciso sala de aula.
Cláudia Laitano
No faroeste “O Homem que Matou o Facínora” (1962), de John Ford, há uma cena decisiva de duelo em que três homens medem suas forças. James Stewart, na pele do advogado Ransom Stoddard, representa a crença na lei e no contrato social que torna a civilização possível. Lee Marvin, o facínora Liberty Valance, encarna a força bruta e sem limites que submete a pequena cidade de Shinbone à lógica perversa do manda-mais-quem-pode-mais – e quem atira mais rápido. O terceiro vértice cabe a John Wayne, como o herói que tem a coragem e a destreza para enfrentar o bandido, mas está mais interessado em defender a própria pele e a das pessoas próximas do que a cidade inteira.
No começo do filme, o bando de Liberty Valance assalta a carruagem em que Ransom Stoddard viaja com uma velha viúva. Quando o bandido ataca sua acompanhante, o jovem advogado sai em sua defesa. “Que espécie de homem é você?”, pergunta James Stewart, espantado com a brutalidade do agressor. Lee Marvin devolve a pergunta, sugerindo que o tipo esquisito ali é quem, em pleno Velho Oeste, anda armado apenas com seus livros de Direito.
Como boa parte dos filmes de John Ford, “O Homem que Matou o Facínora” encerra um pequeno tratado sociológico sobre a formação dos Estados Unidos. É provável que os descendentes de índios não aprovem muito a versão da História que o diretor privilegia, mas toda a revisão histórica que se fez de sua obra não foi capaz de negar seu talento como cineasta. “O Homem que Matou o Facínora” é o meu favorito por vários motivos, mas há uma pequena cena que vale por toda a mitologia do Velho Oeste como o cenário em que a civilização e os instintos mais primitivos se enfrentam. O homem que acredita na justiça e prefere não andar armado improvisa uma pequena sala de aula para ensinar adultos e crianças não apenas a ler e escrever, mas também a conhecer sua História e os princípios que fundaram o país. Sem educação, a cidade estaria condenada a ficar à mercê de heróis e bandidos. Para a democracia sobreviver, sugere o filme, não basta Congresso: é preciso sala de aula.
Acho que não abuso muito do raciocínio se disser que em determinada época as marchinhas ocuparam no imaginário brasileiro um espaço parecido com que o cinema ocupou nos Estados Unidos. Muito populares dos anos 1920 aos 1960, as marchinhas de Carnaval oferecem um retrato irreverente da alma nacional. Ouvindo a letra de uma marchinha, a gente descobre não apenas as gírias que a nossa avó usava, mas também um horizonte mais amplo de convicções, costumes, preconceitos e tendências políticas. Se existe sociologia no cinema estadunidense, ela também está na marchinha brasileira. Não sei se há alguma que celebre o giz e o quadro-negro, mas tem uma, “Se Eu Fosse Getúlio”, sucesso no Carnaval de 1954, que sugere o que o brasileiro médio dos anos 1950 pensava sobre educação: “O Brasil tem muito doutor / Muito funcionário, muita professora / Se eu fosse o Getúlio / Mandava metade dessa gente pra lavoura”.
Mais de 120 anos se passaram desde a época do Velho Oeste, e boa parte desse tempo o Brasil desperdiçou acreditando que doutores e professores não faziam falta. As consequências dessa escolha podem nos apanhar a qualquer momento, em qualquer esquina, sempre que um facínora topar com um homem comum – e não houver nem xerife nem John Wayne por perto para o defender.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16392, 10/7/2010.
Para a democracia sobreviver, sugere o filme “O Homem que Matou o Facínora”, não basta Congresso: é preciso sala de aula.
Cláudia Laitano
No faroeste “O Homem que Matou o Facínora” (1962), de John Ford, há uma cena decisiva de duelo em que três homens medem suas forças. James Stewart, na pele do advogado Ransom Stoddard, representa a crença na lei e no contrato social que torna a civilização possível. Lee Marvin, o facínora Liberty Valance, encarna a força bruta e sem limites que submete a pequena cidade de Shinbone à lógica perversa do manda-mais-quem-pode-mais – e quem atira mais rápido. O terceiro vértice cabe a John Wayne, como o herói que tem a coragem e a destreza para enfrentar o bandido, mas está mais interessado em defender a própria pele e a das pessoas próximas do que a cidade inteira.
No começo do filme, o bando de Liberty Valance assalta a carruagem em que Ransom Stoddard viaja com uma velha viúva. Quando o bandido ataca sua acompanhante, o jovem advogado sai em sua defesa. “Que espécie de homem é você?”, pergunta James Stewart, espantado com a brutalidade do agressor. Lee Marvin devolve a pergunta, sugerindo que o tipo esquisito ali é quem, em pleno Velho Oeste, anda armado apenas com seus livros de Direito.
Como boa parte dos filmes de John Ford, “O Homem que Matou o Facínora” encerra um pequeno tratado sociológico sobre a formação dos Estados Unidos. É provável que os descendentes de índios não aprovem muito a versão da História que o diretor privilegia, mas toda a revisão histórica que se fez de sua obra não foi capaz de negar seu talento como cineasta. “O Homem que Matou o Facínora” é o meu favorito por vários motivos, mas há uma pequena cena que vale por toda a mitologia do Velho Oeste como o cenário em que a civilização e os instintos mais primitivos se enfrentam. O homem que acredita na justiça e prefere não andar armado improvisa uma pequena sala de aula para ensinar adultos e crianças não apenas a ler e escrever, mas também a conhecer sua História e os princípios que fundaram o país. Sem educação, a cidade estaria condenada a ficar à mercê de heróis e bandidos. Para a democracia sobreviver, sugere o filme, não basta Congresso: é preciso sala de aula.
Acho que não abuso muito do raciocínio se disser que em determinada época as marchinhas ocuparam no imaginário brasileiro um espaço parecido com que o cinema ocupou nos Estados Unidos. Muito populares dos anos 1920 aos 1960, as marchinhas de Carnaval oferecem um retrato irreverente da alma nacional. Ouvindo a letra de uma marchinha, a gente descobre não apenas as gírias que a nossa avó usava, mas também um horizonte mais amplo de convicções, costumes, preconceitos e tendências políticas. Se existe sociologia no cinema estadunidense, ela também está na marchinha brasileira. Não sei se há alguma que celebre o giz e o quadro-negro, mas tem uma, “Se Eu Fosse Getúlio”, sucesso no Carnaval de 1954, que sugere o que o brasileiro médio dos anos 1950 pensava sobre educação: “O Brasil tem muito doutor / Muito funcionário, muita professora / Se eu fosse o Getúlio / Mandava metade dessa gente pra lavoura”.
Mais de 120 anos se passaram desde a época do Velho Oeste, e boa parte desse tempo o Brasil desperdiçou acreditando que doutores e professores não faziam falta. As consequências dessa escolha podem nos apanhar a qualquer momento, em qualquer esquina, sempre que um facínora topar com um homem comum – e não houver nem xerife nem John Wayne por perto para o defender.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16392, 10/7/2010.
Marcadores:
Cláudia Laitano,
Texto,
Zero Hora
"Índio quer apito", de Martha Medeiros
Índio quer apito
Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória. E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita.
Martha Medeiros
Muitas coisas desmotivam o eleitor brasileiro, desde os subterfúgios para escapar de lei Ficha Limpa até a corrupção incessante, que nunca arrefece, não importa quem esteja no governo. Eu me desmotivo por isso tudo também, mas principalmente pelos critérios com que hoje se escolhem companheiros de chapa: vale quem trouxer benefícios até o dia da eleição, e não benefícios após ser eleito.
O caso do vice de José Serra não é único, mas é o mais recente. Lendo as matérias sobre a escolha de Indio da Costa como candidato a vice, não li uma única frase sobre seus atributos como cidadão e homem público.
“Pressionado, Serra aceita deputado do DEM como vice.” Esta manchete está longe de ser o anúncio de um parceiro escolhido por ser competente e capaz de substituir o presidente no caso de esse faltar.
“Diante do risco de desmonte da aliança que sustenta sua candidatura…”, Serra engole o fulano que mal conhece. O importante é agradar à cúpula e aos crápulas.
“O nome que valerá três minutos na propaganda na TV.” Esse é o principal argumento a favor da escolha de um político que, por enquanto, só o que se sabe é que foi namorado da filha de Salvatore Cacciola, o que não é mérito nem demérito, é informação irrelevante. O que importa são os três minutos a mais de espaço para convencer o eleitor de que o PSDB merece voltar ao governo. Talvez mereça. Talvez não. Como saber, se os interesses políticos passam tão longe dos interesses da população?
Não há mais nem o pudor de disfarçar. A portas fechadas, alinhavam-se os toma-lá-dá-cá e a última coisa a que os candidatos se dedicam é formatar um programa de gestão que solucione de vez os problemas até hoje irremediáveis da nação brasileira. Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória. E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita. Uma dívida que não se esgota, que se retroalimenta, e disso vive a política, de conchavos e vaidades, de vitórias e derrotas contabilizadas nos corredores dos ministérios e nas votações em plenário, como se o QG do poder reunisse em si mesmo um país à parte, onde reside o único povo a quem se olha e protege: o povo chamado classe política.
O povo de fora não apita.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16389, 7/7/2010.
Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória. E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita.
Martha Medeiros
Muitas coisas desmotivam o eleitor brasileiro, desde os subterfúgios para escapar de lei Ficha Limpa até a corrupção incessante, que nunca arrefece, não importa quem esteja no governo. Eu me desmotivo por isso tudo também, mas principalmente pelos critérios com que hoje se escolhem companheiros de chapa: vale quem trouxer benefícios até o dia da eleição, e não benefícios após ser eleito.
O caso do vice de José Serra não é único, mas é o mais recente. Lendo as matérias sobre a escolha de Indio da Costa como candidato a vice, não li uma única frase sobre seus atributos como cidadão e homem público.
“Pressionado, Serra aceita deputado do DEM como vice.” Esta manchete está longe de ser o anúncio de um parceiro escolhido por ser competente e capaz de substituir o presidente no caso de esse faltar.
“Diante do risco de desmonte da aliança que sustenta sua candidatura…”, Serra engole o fulano que mal conhece. O importante é agradar à cúpula e aos crápulas.
“O nome que valerá três minutos na propaganda na TV.” Esse é o principal argumento a favor da escolha de um político que, por enquanto, só o que se sabe é que foi namorado da filha de Salvatore Cacciola, o que não é mérito nem demérito, é informação irrelevante. O que importa são os três minutos a mais de espaço para convencer o eleitor de que o PSDB merece voltar ao governo. Talvez mereça. Talvez não. Como saber, se os interesses políticos passam tão longe dos interesses da população?
Não há mais nem o pudor de disfarçar. A portas fechadas, alinhavam-se os toma-lá-dá-cá e a última coisa a que os candidatos se dedicam é formatar um programa de gestão que solucione de vez os problemas até hoje irremediáveis da nação brasileira. Não há espaço para inocência: sem o apoio de um partido e de outro, não se constrói uma candidatura com chances de vitória. E, vencendo, será a hora de retribuir esse apoio, de distribuir cargos, de pagar a aposta feita. Uma dívida que não se esgota, que se retroalimenta, e disso vive a política, de conchavos e vaidades, de vitórias e derrotas contabilizadas nos corredores dos ministérios e nas votações em plenário, como se o QG do poder reunisse em si mesmo um país à parte, onde reside o único povo a quem se olha e protege: o povo chamado classe política.
O povo de fora não apita.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16389, 7/7/2010.
Marcadores:
Martha Medeiros,
Texto,
Zero Hora
"Check-up filosófico", de Cláudia Laitano
Check-up filosófico
Se a gente nem sempre pode confiar no que sente, será que dá para contar com aquilo que acreditamos ser a sensata voz da razão?
Cláudia Laitano
Tem um verso de uma linda canção da banda Radiohead, “There There”, que volta e meia me vem à cabeça: “Just ‘cause you feel it / Doesn’t mean it’s there” (em tradução muito livre, algo como “Só porque você está sentindo, não quer dizer que seja real”).
Algumas pessoas com mais frequência do que outras, todos somos levados, eventualmente, a agir e reagir como se a emoção do momento estivesse no comando, e não a cabeça. O sentimento até pode ser genuíno – dor, ciúme, raiva, paixão – mas nem sempre a leitura que fazemos da realidade guiados por essa emoção é correta, justa ou adequada para a ocasião. Para não fugir ao tema obrigatório do dia, deixar-se levar pela emoção pode fazer com que torcedores apaixonados exagerem os méritos do próprio time ou subestimem as qualidades dos adversários. Só porque você sente, não quer dizer que esteja lá.
Mas se a gente nem sempre pode confiar no que sente, será que dá para contar com aquilo que acreditamos ser a sensata voz da razão? Essa é a provocação do livro “Você Pensa o que Acha que Pensa? – Um Check-up Filosófico” (Editora Zahar, R$ 19,90), lançado há pouco [texto de 3/7/2010] no Brasil. Criadores de uma popular revista de filosofia na internet (www.philosophersnet.com), os autores Julian Baggini e Jeremy Stangroom propõem 12 testes que ajudam a medir até que ponto o leitor é fiel aos princípios que defende – ou seja, se ele é realmente aquela pessoa que, na maior parte do tempo, acredita ser.
Tirar uma vida é sempre, em todas as situações, moralmente condenável? Tudo que é antinatural é necessariamente errado? Como julgamos se um artista é bom ou não? Existem verdades absolutas ou tudo é relativo? Os questionários identificam tensões, ou contradições, nas nossas opiniões sobre determinados assuntos. Será possível, por exemplo, acreditar em livre-arbítrio e ao mesmo tempo em destino? Uma impagável frase de George W. Bush usada como epígrafe no livro parece resumir a enrascada: “Tenho as minhas próprias opiniões – opiniões sólidas –, mas nem sempre concordo com elas”.
Os assuntos são sérios – ética, moral, tabus, religião –, mas o livro não tem nada de chato ou complicado. Exige alguma paciência de quem se dispõe a se submeter a todos os testes, mas o resultado pode ser bastante revelador e intrigante. Ficamos sabendo, por exemplo, que a maioria das pessoas (cerca de 75%) que se submetem ao teste de lógica acerta apenas duas das quatro questões, todas aparentemente muito simples (foi o meu caso, aliás).
Se a lógica é “a anatomia do pensamento” (John Locke), é possível concluir que trocamos os pés pelas mãos mais frequentemente do que imaginamos na hora de analisar um argumento. Agora que a campanha eleitoral vai começar de verdade, essa é uma boa desconfiança para manter em mente.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16385, 3/7/2010.
Se a gente nem sempre pode confiar no que sente, será que dá para contar com aquilo que acreditamos ser a sensata voz da razão?
Cláudia Laitano
Tem um verso de uma linda canção da banda Radiohead, “There There”, que volta e meia me vem à cabeça: “Just ‘cause you feel it / Doesn’t mean it’s there” (em tradução muito livre, algo como “Só porque você está sentindo, não quer dizer que seja real”).
Algumas pessoas com mais frequência do que outras, todos somos levados, eventualmente, a agir e reagir como se a emoção do momento estivesse no comando, e não a cabeça. O sentimento até pode ser genuíno – dor, ciúme, raiva, paixão – mas nem sempre a leitura que fazemos da realidade guiados por essa emoção é correta, justa ou adequada para a ocasião. Para não fugir ao tema obrigatório do dia, deixar-se levar pela emoção pode fazer com que torcedores apaixonados exagerem os méritos do próprio time ou subestimem as qualidades dos adversários. Só porque você sente, não quer dizer que esteja lá.
Mas se a gente nem sempre pode confiar no que sente, será que dá para contar com aquilo que acreditamos ser a sensata voz da razão? Essa é a provocação do livro “Você Pensa o que Acha que Pensa? – Um Check-up Filosófico” (Editora Zahar, R$ 19,90), lançado há pouco [texto de 3/7/2010] no Brasil. Criadores de uma popular revista de filosofia na internet (www.philosophersnet.com), os autores Julian Baggini e Jeremy Stangroom propõem 12 testes que ajudam a medir até que ponto o leitor é fiel aos princípios que defende – ou seja, se ele é realmente aquela pessoa que, na maior parte do tempo, acredita ser.
Tirar uma vida é sempre, em todas as situações, moralmente condenável? Tudo que é antinatural é necessariamente errado? Como julgamos se um artista é bom ou não? Existem verdades absolutas ou tudo é relativo? Os questionários identificam tensões, ou contradições, nas nossas opiniões sobre determinados assuntos. Será possível, por exemplo, acreditar em livre-arbítrio e ao mesmo tempo em destino? Uma impagável frase de George W. Bush usada como epígrafe no livro parece resumir a enrascada: “Tenho as minhas próprias opiniões – opiniões sólidas –, mas nem sempre concordo com elas”.
Os assuntos são sérios – ética, moral, tabus, religião –, mas o livro não tem nada de chato ou complicado. Exige alguma paciência de quem se dispõe a se submeter a todos os testes, mas o resultado pode ser bastante revelador e intrigante. Ficamos sabendo, por exemplo, que a maioria das pessoas (cerca de 75%) que se submetem ao teste de lógica acerta apenas duas das quatro questões, todas aparentemente muito simples (foi o meu caso, aliás).
Se a lógica é “a anatomia do pensamento” (John Locke), é possível concluir que trocamos os pés pelas mãos mais frequentemente do que imaginamos na hora de analisar um argumento. Agora que a campanha eleitoral vai começar de verdade, essa é uma boa desconfiança para manter em mente.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16385, 3/7/2010.
Marcadores:
Cláudia Laitano,
Texto,
Zero Hora
terça-feira, 22 de junho de 2010
Reveja a entrevista de Edney Silvestre com José Saramago
Reveja a entrevista de Edney Silvestre com José Saramago
O repórter Edney Silvestre entrevistou o grande escritor em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, na Espanha, em 2007. Conheça as ideias, a obra e a vida de José Saramago. Espaço Aberto, 18/6/2010.
http://blip.tv/file/3787896
BLIP.TV
[ASSISTIR] [BAIXAR]
O repórter Edney Silvestre entrevistou o grande escritor em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, na Espanha, em 2007. Conheça as ideias, a obra e a vida de José Saramago. Espaço Aberto, 18/6/2010.
http://blip.tv/file/3787896
BLIP.TV
[ASSISTIR] [BAIXAR]
Marcadores:
blip.tv (mcrost01),
Globo News - Espaço Aberto,
Vídeo
Lord, save us from your followers (Legendado PT-BR)
Lord, save us from your followers
(Deus, livrai-nos dos teus seguidores)

Por que o Evangelho do Amor está dividindo a América? Dan Merchant põe seu macacão adesivado e decide descobrir o motivo. Após conversar com dezenas de homens e mulheres nas ruas por todo o país, e também entrevistar muitos ativistas famosos da guerra cultural atual, Dan conclui que a discussão pública da fé não precisa ser litigiosa. Dos créditos de abertura à observação da fé em ação, "Deus, livrai-nos dos teus seguidores" é um documentário de ritmo rápido e envolvente que explora o choque entre a fé e a cultura nos EUA. Com humor mais adequado a um programa de comédia que a um documentário, Merchant traz a sensibilidade de alguém extremamente preocupado com a forma como a sua fé está sendo representada pelos outros. "Deus, livrai-nos dos teus seguidores" proporciona um debate provocativo, divertido e redentor que certamente continuará após a exibição dos créditos finais.
YAHOO! VÍDEO
[LISTA DE REPRODUÇÃO]
[PARTE 1] [PARTE 2] [PARTE 3]
[PARTE 4] [PARTE 5] [PARTE 6]
[PARTE 7] [PARTE 8]
(Deus, livrai-nos dos teus seguidores)

Por que o Evangelho do Amor está dividindo a América? Dan Merchant põe seu macacão adesivado e decide descobrir o motivo. Após conversar com dezenas de homens e mulheres nas ruas por todo o país, e também entrevistar muitos ativistas famosos da guerra cultural atual, Dan conclui que a discussão pública da fé não precisa ser litigiosa. Dos créditos de abertura à observação da fé em ação, "Deus, livrai-nos dos teus seguidores" é um documentário de ritmo rápido e envolvente que explora o choque entre a fé e a cultura nos EUA. Com humor mais adequado a um programa de comédia que a um documentário, Merchant traz a sensibilidade de alguém extremamente preocupado com a forma como a sua fé está sendo representada pelos outros. "Deus, livrai-nos dos teus seguidores" proporciona um debate provocativo, divertido e redentor que certamente continuará após a exibição dos créditos finais.
YAHOO! VÍDEO
[LISTA DE REPRODUÇÃO]
[PARTE 1] [PARTE 2] [PARTE 3]
[PARTE 4] [PARTE 5] [PARTE 6]
[PARTE 7] [PARTE 8]
Marcadores:
Dan Merchant,
Vídeo,
Yahoo Vídeo
segunda-feira, 21 de junho de 2010
"Certos milagres engarrafados", de J. A. Pinheiro Machado
Certos milagres engarrafados
É justo dedicar certa reverência a uma bebida que, diz Anonymus Gourmet, tem alma.
J. A. Pinheiro Machado
A volta das missas em latim é uma das poucas convicções do papa Bento XVI que conta com o apoio de Anonymus Gourmet. O ritual e a liturgia, e todos seus aparatos, como o latim, o medo do inferno, o pecado, a culpa e a danação, são indispensáveis à fé. O demônio, com o medo do belzebu, prestou grandes serviços à Igreja Católica. Era algo a ser temido e enfrentado, indo à missa, sendo um bom cristão, rezando todas as ave-marias. A devoção dos fiéis não se estabelece com as grandes doutrinas, com os princípios teológicos, nem com Deus diretamente. Mas, sim, com os símbolos, através dos rituais e da liturgia. Tiraram a batina dos padres, acabaram com as missas em latim, democratizaram os cultos, a propósito de popularizar a fé, e o que conseguiram? A evasão em massa dos fiéis. Há mais de um século, Eça de Queiroz já advertia que “uma religião a que se elimine o ritual, desaparece”. O rigor dos rituais e da liturgia é o único abrigo seguro contra o pesadelo da dúvida. A informalidade é uma porta aberta à crise da fé.
Por isso, Anonymus Gourmet, prudentemente, com a cautela de um velho sacerdote, sempre defendeu para o vinho, mesmo numa mesa simples, a dignidade de uma toalha bem engomada, copos de alguma cerimônia e – por que não? – um pouco de solenidade. Afinal, é justo dedicar certa reverência a uma bebida que, diz ele, tem alma. Não por acaso se fala da “alma” do vinho. Anonymus Gourmet conta que, certa vez, numa garrafa especialmente feliz, o bouquet era tão rico, tão carregado de matizes e nuances, que chegou a perceber “reminiscências do perfume floral de uma antiga namorada” – caso tormentoso mas inesquecível, capaz de perturbar todos os sentidos, inclusive o olfato. Na verdade, é espantoso perceber no olfato do vinho sensações do tipo “madeira”, “rosmarino”, “fruta verde” etc. – imagine quem encontra num cálice o perfume de velhas paixões! Quando alguém sugeriu que aquilo se parecia com um milagre, Anonymus fez uma genuína profissão de fé: “Sim, eu acredito em milagres. E ainda bem que certos milagres são engarrafados”.
Foi inevitável uma recordação afetiva: “Se cerveja fosse bom, Jesus teria transformado a água em cerveja e não em vinho”, dizia o meu pai, que não acreditava em Deus. Nem em cerveja, é claro. Ele sacudia a cabeça, desolado, com a inconstância e a frivolidade de certos apaixonados do vinho, que, nos dias quentes de verão, sucumbem à primeira cervejinha gelada, ou “loira suada”, como deve dizer um autêntico bebedor de cerveja. Essa recusa do meu pai diante da infidelidade, talvez seja a perplexidade do papa diante dos padres que trocam a severidade do vinho do púlpito pela descontração de uma cervejinha na praia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16373, 21/6/2010.
É justo dedicar certa reverência a uma bebida que, diz Anonymus Gourmet, tem alma.
J. A. Pinheiro Machado
A volta das missas em latim é uma das poucas convicções do papa Bento XVI que conta com o apoio de Anonymus Gourmet. O ritual e a liturgia, e todos seus aparatos, como o latim, o medo do inferno, o pecado, a culpa e a danação, são indispensáveis à fé. O demônio, com o medo do belzebu, prestou grandes serviços à Igreja Católica. Era algo a ser temido e enfrentado, indo à missa, sendo um bom cristão, rezando todas as ave-marias. A devoção dos fiéis não se estabelece com as grandes doutrinas, com os princípios teológicos, nem com Deus diretamente. Mas, sim, com os símbolos, através dos rituais e da liturgia. Tiraram a batina dos padres, acabaram com as missas em latim, democratizaram os cultos, a propósito de popularizar a fé, e o que conseguiram? A evasão em massa dos fiéis. Há mais de um século, Eça de Queiroz já advertia que “uma religião a que se elimine o ritual, desaparece”. O rigor dos rituais e da liturgia é o único abrigo seguro contra o pesadelo da dúvida. A informalidade é uma porta aberta à crise da fé.
Por isso, Anonymus Gourmet, prudentemente, com a cautela de um velho sacerdote, sempre defendeu para o vinho, mesmo numa mesa simples, a dignidade de uma toalha bem engomada, copos de alguma cerimônia e – por que não? – um pouco de solenidade. Afinal, é justo dedicar certa reverência a uma bebida que, diz ele, tem alma. Não por acaso se fala da “alma” do vinho. Anonymus Gourmet conta que, certa vez, numa garrafa especialmente feliz, o bouquet era tão rico, tão carregado de matizes e nuances, que chegou a perceber “reminiscências do perfume floral de uma antiga namorada” – caso tormentoso mas inesquecível, capaz de perturbar todos os sentidos, inclusive o olfato. Na verdade, é espantoso perceber no olfato do vinho sensações do tipo “madeira”, “rosmarino”, “fruta verde” etc. – imagine quem encontra num cálice o perfume de velhas paixões! Quando alguém sugeriu que aquilo se parecia com um milagre, Anonymus fez uma genuína profissão de fé: “Sim, eu acredito em milagres. E ainda bem que certos milagres são engarrafados”.
Foi inevitável uma recordação afetiva: “Se cerveja fosse bom, Jesus teria transformado a água em cerveja e não em vinho”, dizia o meu pai, que não acreditava em Deus. Nem em cerveja, é claro. Ele sacudia a cabeça, desolado, com a inconstância e a frivolidade de certos apaixonados do vinho, que, nos dias quentes de verão, sucumbem à primeira cervejinha gelada, ou “loira suada”, como deve dizer um autêntico bebedor de cerveja. Essa recusa do meu pai diante da infidelidade, talvez seja a perplexidade do papa diante dos padres que trocam a severidade do vinho do púlpito pela descontração de uma cervejinha na praia.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 16373, 21/6/2010.
Marcadores:
J. A. Pinheiro Machado,
Texto,
Zero Hora
Cidades e Soluções Especial: Transgênicos – 2ª parte
Cidades e Soluções Especial: Transgênicos – 2ª parte
Desde 2005, quando se aprovou a Lei Nacional de Biossegurança, os transgênicos fazem parte do cotidiano dos brasileiros. Entenda como se faz o licenciamento e a rotulagem das substâncias transgênicas. Cidades e Soluções, 16/6/2010.
http://blip.tv/file/3780849
BLIP.TV
[ASSISTIR] [BAIXAR]
Veja também:
Alimentos transgênicos criam polêmica sobre efeitos à saúde e ao meio ambiente
Le monde selon Monsanto (Legendado PT-BR)
Desde 2005, quando se aprovou a Lei Nacional de Biossegurança, os transgênicos fazem parte do cotidiano dos brasileiros. Entenda como se faz o licenciamento e a rotulagem das substâncias transgênicas. Cidades e Soluções, 16/6/2010.
http://blip.tv/file/3780849
BLIP.TV
[ASSISTIR] [BAIXAR]
Veja também:
Alimentos transgênicos criam polêmica sobre efeitos à saúde e ao meio ambiente
Le monde selon Monsanto (Legendado PT-BR)
Marcadores:
blip.tv (mcrost01),
Globo News - Cidades e Soluções,
Vídeo
Assinar:
Postagens (Atom)